Resumo: o carro mais barato do Brasil custava uns R$ 40 mil em 2020 e hoje custa R$ 71 mil. Foi por causa dessa alta que o carro por assinatura cresceu tanto. Fiz a conta dos dois lados: um carro de R$ 100 mil custa R$ 2.597 por mês se você comprar à vista e R$ 2.733 por mês se assinar. Ou seja, dá quase empate. O que decide não é o preço — é quanto tempo você vai ficar com o carro, quanto você roda e se o seu bolso aguenta uma despesa inesperada.
Para quem é este texto
Ter um carro é, para muita gente, o primeiro símbolo de independência. Sair de casa sem depender de ninguém, sem horário de ônibus, sem pedir carona. É um desejo legítimo e não tem nada de errado com ele.
Mas este texto não é para quem ama carro. Quem ama carro não está fazendo conta — está comprando uma coisa de que gosta, e isso é outra decisão. Também não é para quem usa o veículo como ferramenta de trabalho pesado, porque aí as contas são diferentes.
Este texto é para quem precisa de um carro e quer gastar o mínimo possível para isso.
Por que os carros ficaram tão caros
Quem tentou comprar ou vender um carro de 2020 para cá levou um susto.
Começou na pandemia. As fábricas pararam, faltou chip no mundo inteiro, o dólar disparou e os materiais encareceram. Resultado: pouco carro na praça. Ao mesmo tempo, os governos injetaram dinheiro na economia e muita gente trocou o ônibus pelo carro próprio com medo de contágio. Sobrou procura e faltou oferta. Quando isso acontece, o preço sobe.
E subiu muito mais que o resto das coisas:
- Em 2021, os carros novos ficaram 16,1% mais caros e os usados, 15,1% — num ano em que a inflação foi de 10,06%.
- Em 2022, os novos subiram mais 8,3%.
- De 2023 em diante a coisa acalmou. As fábricas voltaram ao normal e as marcas chinesas chegaram brigando por preço. O reajuste caiu para 2,4% em 2023 e ficou perto de 2% em 2024. Alguns modelos até baixaram.
O estrago maior foi no carro de entrada, justamente o de quem tem menos folga no orçamento. Em 2020, um Renault Kwid saía por uns R$ 40 mil. Hoje, o mesmo Kwid — ainda o carro mais barato do país — sai por R$ 71.190.
Para você ter ideia do tamanho disso: se aqueles R$ 40 mil tivessem subido só o tanto que a inflação subiu, o carro custaria R$ 53 mil hoje. Ele custa R$ 71 mil. Essa diferença de R$ 18 mil é o carro ficando caro de verdade, não é só inflação.
Daí a pergunta: ainda compensa comprar um carro zero?
Cuidado com uma confusão comum
Você leu ali em cima que os carros usados subiram de preço. Isso pode dar a impressão de que carro não perde mais valor. Não é isso.
O que subiu foi o preço do mercado inteiro. Um Onix 2018 custava mais em 2022 do que custava em 2021, é verdade. Mas o seu carro continuou ficando mais velho dentro desse mercado — e um Onix 2022 sempre valeu mais que um Onix 2018.
Aquela valorização foi uma exceção, causada pela falta de carros novos. Com as fábricas normalizadas e os chineses brigando por preço, o mercado voltou ao de sempre: carro perde valor conforme envelhece. As contas deste texto partem daí.
Como funciona o carro por assinatura
Foi essa alta de preços que fez o carro por assinatura explodir. O modelo já existia para empresas e desceu para a pessoa física.
Funciona assim: você escolhe um carro zero, um prazo (normalmente de 1 a 3 anos) e quantos quilômetros vai rodar por mês. Paga uma mensalidade fixa e o carro chega na sua casa. Nessa mensalidade já estão IPVA, licenciamento, seguro, revisões e manutenção. O carro fica no nome da locadora, então você não dá entrada, não declara no imposto de renda e não precisa se preocupar em vender depois. Quando o contrato acaba, você devolve.
Na prática, é um aluguel longo com tudo incluído. Você abre mão de ser dono e ganha um valor fixo no fim do mês.
Cresceu rápido: eram cerca de 80 mil carros nesse formato em 2020 e 180 mil no fim de 2024, segundo a associação das locadoras. Só em 2024 o crescimento foi de 44%.
A questão é saber se isso é bom para você ou só para a locadora. É o que a conta a seguir mostra.
A opção mais barata é a que ninguém comenta
Antes de comparar assinar, comprar à vista e financiar, vale dizer qual ganha de todas:
Um carro usado de três anos, que você usa por mais três, custa R$ 1.760 por mês.
É um terço mais barato que comprar o mesmo modelo zero e também um terço mais barato que assinar. O motivo é simples: a maior queda de preço de um carro acontece nos primeiros três anos, e quem pagou por ela foi o dono anterior. Você entra no carro depois do tombo.
A troca é: garantia de fábrica já vencida ou perto disso, mais risco de manutenção, e o trabalho de levar o carro a um mecânico de confiança antes de fechar negócio. É custo de verdade. Mas de tudo que eu testei neste texto, esse é o resultado que não muda, faça a conta como fizer.
Querer carro zero custa uns R$ 840 por mês a mais. Só isso. Pode valer a pena para você — só é bom saber o preço.
As quatro contas que quase ninguém faz
A maioria das pessoas compara a parcela do financiamento com a mensalidade da assinatura e para por aí. Faltam quatro coisas.
A desvalorização. É o maior gasto de um carro novo e o único que não chega como boleto. Ninguém cobra de você. O dinheiro só não está mais lá quando você vai vender. Um carro zero perde de 15% a 20% do valor no primeiro ano e de 8% a 12% nos seguintes.
O dinheiro que deixa de render. Se você tem R$ 100 mil e coloca no carro, esse dinheiro para de trabalhar. Aplicado num investimento simples que acompanha os juros do país, ele renderia hoje uns R$ 927 por mês, já descontado o imposto. Repare no tamanho: R$ 927 paga um terço de uma mensalidade de assinatura. Ajuda, mas está longe de pagar sozinho.
Os gastos de ter o carro. IPVA, seguro, licenciamento, revisões, pneus. Dá quase R$ 10 mil só no primeiro ano de um carro de R$ 100 mil.
Os juros, se você financiar. A média cobrada no Brasil para financiar carro está em torno de 1,9% ao mês. Parece pouco. Não é.
A conta
Carro zero de R$ 100 mil, três anos de uso. Coloquei tudo no mesmo formato: quanto cada opção custa por mês, contando tudo — o que você paga, o que você deixa de ganhar e o que você recupera na revenda.
| Custo por mês | |
|---|---|
| Comprar à vista | R$ 2.597 |
| Financiar | R$ 3.267 |
| Assinar | R$ 2.733 |
Financiar é a pior opção, disparado. Você paga cerca de R$ 40 mil só de juros em três anos e, no fim do terceiro ano, ainda deve R$ 25 mil ao banco. A parcela é de R$ 2.372 e não inclui IPVA nem seguro — isso você paga à parte. E o carro ainda não é seu.
Uma ressalva justa: 1,9% ao mês é a média do mercado. Se você conseguir aquela promoção de banco de montadora, com juro bem baixo, a conta muda. Vale fazer de novo com a sua taxa.
Entre comprar à vista e assinar, dá quase empate. R$ 135 de diferença por mês. Isso é pouco — qualquer premissa que eu mude um pouquinho vira o jogo. Quem disser a você com certeza qual dos dois é melhor está vendendo alguma coisa.
O preço de corte
Existe um valor de mensalidade em que assinar e comprar custam exatamente a mesma coisa. Abaixo dele, assinar compensa. Acima, comprar compensa.
Para um carro de R$ 100 mil em três anos, esse valor fica em torno de R$ 2.565 por mês.
Mas ele muda conforme duas coisas: os juros do país e a velocidade com que o modelo que você quer perde valor. Nas contas que fiz, ele foi de R$ 2.239 a R$ 2.745.
E tem mais um detalhe que joga a favor de assinar. Naquela conta, eu contei os R$ 66 mil que você receberia vendendo o carro daqui a três anos como se fossem dinheiro garantido. Só que não são. Pode sair uma geração nova do modelo, pode ter recall, pode acontecer alguma coisa com o carro. Descontando um pouco por essa incerteza, o preço de corte sobe para R$ 2.700 ou mais — e aí a assinatura passa na frente.
Por isso este texto não crava um vencedor. O corte fica em algum lugar entre R$ 2,3 mil e R$ 2,9 mil, e a mensalidade que você vai receber de proposta provavelmente cai bem no meio disso.
O que fazer na prática: peça orçamento em pelo menos três empresas. A diferença de preço entre elas, para o mesmo carro, costuma ser maior que a diferença entre assinar e comprar. Cotar vale mais que qualquer artigo sobre o assunto — este aqui incluído.
Como a assinatura consegue ser tão competitiva
Não é por causa do seu investimento. Já vimos que ele paga um terço da mensalidade.
O motivo está do outro lado: a locadora não paga o mesmo preço que você pelo carro. Ela compra centenas de unidades de uma vez, direto da fábrica, com desconto grande. Faz seguro de frota, que sai bem mais barato que o seu. E paga menos em manutenção porque leva muito carro na mesma oficina.
Fiz a conta pelo lado dela. Com um desconto de 15% na compra, e considerando que carro de locadora roda muito e é vendido depois um pouco abaixo da tabela, manter aquele carro custa a ela cerca de R$ 1.913 por mês — antes de ganhar qualquer lucro.
Como o preço de mercado fica entre R$ 2.400 e R$ 2.700, sobra um lucro normal para o setor. Ou seja: existe espaço de verdade para a locadora cobrar menos do que custaria para você e ainda assim ganhar dinheiro. A vantagem dela vem de comprar barato, não da sua aplicação financeira.
O que realmente decide: quanto tempo você fica com o carro
Aqui está o desempate, e é a parte mais importante do texto.
O custo mensal de um carro comprado cai todo ano. A mensalidade da assinatura, não — ela é fixa e sobe a cada renovação de contrato.
| Tempo que você fica com o carro | Custo por mês |
|---|---|
| 2 anos | R$ 2.847 |
| 3 anos | R$ 2.597 |
| 4 anos | R$ 2.432 |
| 5 anos | R$ 2.318 |
| 7 anos | R$ 2.164 |
| 8 anos | R$ 2.110 |
Por que cai: depois do terceiro ano o carro já perdeu a maior parte do valor que ia perder. O IPVA e o seguro também caem, porque acompanham o preço do carro. E sobra menos dinheiro seu preso ali dentro.
Olhe a primeira linha. Quem compra zero para trocar em dois anos gasta R$ 2.847 por mês — mais caro que a assinatura de R$ 2.733. Trocar de carro toda hora é o jeito mais caro de ser dono. E é exatamente isso que a assinatura vende barato.
A regra é essa: se você troca de carro rápido, assinar tende a ganhar. Se você fica anos com o mesmo carro, comprar ganha. A virada acontece entre o segundo e o terceiro ano.
Esse critério é mais confiável que a diferença de preço, porque não depende de nenhuma conta discutível. Depende de você saber como usa carro.
O que a mensalidade não cobre
A assinatura inclui IPVA, licenciamento, seguro, revisões e manutenção. Não inclui:
- gasolina, pedágio, estacionamento, lavagem e multas;
- quilômetro a mais do que o contratado — os planos vão de 1.000 a 3.000 km por mês, e o que passar disso é cobrado à parte, caro;
- arranhões e amassados além do desgaste normal, avaliados quando você devolve o carro;
- a sua parte em caso de batida, parecido com a franquia do seguro;
- taxa de adesão, entre R$ 500 e R$ 2.500, que não volta;
- multa se você quiser sair antes do fim do contrato — esse é o item mais caro da letra miúda.
Antes de assinar, faça duas coisas. Veja quantos quilômetros você rodou no último ano (está no histórico das revisões). E leia a parte do contrato que fala em cancelamento.
Quatro situações
Você tem o dinheiro e gosta de trocar de carro a cada dois ou três anos.
Esse é o pior cenário para quem compra. Peça orçamento de assinatura: se vier abaixo de uns R$ 2,6 mil para um carro de R$ 100 mil, a conta favorece assinar. Favorece ainda mais se o modelo que você quer for daqueles que perdem valor rápido.
Você tem o dinheiro e quer ficar cinco anos ou mais com o carro.
Compre. A partir do quarto ano a compra abre uma vantagem que nada reverte: R$ 2.318 por mês contra uma mensalidade que não cai nunca. Assinatura por muitos anos é aluguel eterno, e no fim você não fica com nada.
Você não tem o valor à vista.
Compre um usado com o dinheiro que você tem. Financiar um zero custa R$ 3.267 por mês — quase o dobro dos R$ 1.760 do usado. E se o usado não cabe no seu orçamento, o zero também não cabe. Só demora mais para a conta apertar.
Você roda mais de 2.500 km por mês.
Compre. Os planos de quilometragem alta têm mensalidade bem mais cara, e o que passa do limite é cobrado a peso de ouro. Se o carro é para trabalhar e você tem CNPJ, a mensalidade da assinatura pode ser abatida como despesa da empresa, o que muda a conta a favor dela — leve os números ao seu contador antes de decidir sozinho.
Uma coisa que a conta não mostra
Tudo o que você leu aqui é uma média. E média esconde surpresa.
Os R$ 2.597 por mês de quem compra é o custo num ano normal. Mas pode dar problema no câmbio automático depois que a garantia acabou. Pode sair a geração nova do modelo e o seu despencar de preço. Pode dar uma batida com o seguro cobrindo menos do que você imaginava. Quando isso acontece, quem paga é o dono.
Quem assina paga R$ 135 a mais por mês e não tem nenhum desses riscos. Isso tem um nome: é um seguro. E quando você faz a conta direito, descobre que esse seguro é barato — quase de graça.
Pode ser dinheiro muito bem gasto se você não tem uma reserva para bancar um susto de R$ 15 mil. Ou se você simplesmente dorme melhor com um valor fixo no fim do mês.
E tem uma última coisa, que nenhuma planilha pega: a ideia de que comprar sai mais barato só funciona se o dinheiro que sobra ficar rendendo. Muita gente não guarda a diferença. Aí a conta não erra — quem errou foi a suposição sobre você mesmo.
Conteúdo educacional e independente — não é recomendação de investimento.
Como as contas foram feitas: carro zero de R$ 100 mil; desvalorização de 18%, 11% e 9% ao ano; IPVA de 4% (São Paulo); seguro de 5% do valor do carro por ano; licenciamento de R$ 200 por ano; revisões e pneus de R$ 700, R$ 900 e R$ 2.400; emplacamento e documentos de R$ 2.000; financiamento com 30% de entrada em 48 meses a 1,9% ao mês, com IOF e tarifas; assinatura de R$ 2.700 por mês mais adesão de R$ 1.000. Todos os valores foram trazidos para a data de hoje usando o rendimento de um investimento que acompanha os juros básicos (13,90% ao ano), já com desconto de 15% de imposto de renda, e depois transformados em custo mensal. Ficaram de fora dos três cenários, por serem iguais nos três: gasolina, pedágio, estacionamento e multas. Não corrigi os valores pela inflação, o que favorece um pouco a compra. Taxas de setembro de 2026 — os juros estão em queda, e o preço de corte cai junto com eles. Fontes: Banco Central (juros e financiamento), IBGE (inflação e preços de automóveis), ABLA (frota de carro por assinatura), tabelas das montadoras e cálculo próprio.
