Como escolher boas ações: o primeiro passo (sem cair em fórmula mágica)

Este texto é a sequência de Por que começar pelo ETF antes de sair comprando ações. Se você ainda não leu, vale começar por lá.

Você já investe em ações, já entendeu que o preço sobe e desce todo santo dia e já aprendeu a conviver com isso. Ótimo. Passada essa fase, aparecem duas perguntas que parecem básicas, mas que continuam martelando na cabeça até do investidor mais experiente:

“Como eu escolho a melhor empresa para comprar?”
“Qual é a hora certa de vender?”

A boa notícia é que essas perguntas têm resposta. A má notícia é que a resposta não cabe numa fórmula mágica — e é exatamente por isso que tanta gente prefere acreditar nos atalhos.

Não existe segredo. Existe método.

O mercado está cheio de estratégias e indicadores. E está ainda mais cheio de charlatões vendendo “fórmulas secretas para ficar rico rápido” ou prometendo revelar o “segredo dos grandes investidores”. Poupe seu dinheiro: esse segredo não existe.

O que existe é bem menos sexy e bem mais eficiente: resiliência, disciplina e estudo. O investidor que consegue responder com clareza por que está comprando uma ação já sabe, de antemão, quando e por que vai sair dela. O “porquê” da compra é o que te segura na mão quando o preço cai — e é o que te avisa quando a tese acabou.

Sem esse “porquê”, você não é investidor. É passageiro.

A festa de 2018–2021 (e a ressaca que veio depois)

Você provavelmente lembra. Entre 2018 e 2021, não faltava gente em bar, churrasco e aniversário contando como tinha lucrado com o papel X ou Y. Todo mundo virou gênio da bolsa da noite para o dia, criando narrativas heroicas sobre a própria esperteza.

A verdade é mais simples: era uma temporada em que praticamente tudo subia. Não era talento. Era maré.

Quando a maré virou, esses mesmos “grandes investidores” sumiram. Viraram aquelas pessoas que hoje dizem que bolsa é sorte, é cassino, que só a corretora ganha dinheiro, e por aí vai. Nunca tiveram método — então, quando o vento parou de soprar a favor, não tinham em que se apoiar.

Comprar ação é virar sócio (de verdade, não da boca pra fora)

Todo mundo já ouviu mil vezes que investir em ações é “virar sócio de uma empresa” e pensar no longo prazo. E, na prática, quase ninguém faz isso.

O que a maioria realmente quer é encontrar a próxima Magazine Luiza. E não é à toa: entre dezembro de 2015 e novembro de 2020, a MGLU3 valorizou cerca de 91.000% — ou seja, multiplicou o capital investido por aproximadamente 910 vezes. Quem colocou R$ 1.500 lá embaixo viu virar mais de R$ 1 milhão.

O problema é o final da história que ninguém conta: depois do topo, a ação despencou mais de 90%. E, mais importante, para cada Magalu existem dezenas de empresas que prometiam o mesmo e não entregaram nada. Quem comprou correndo atrás do sonho, na primeira queda se assustou, vendeu no prejuízo e concluiu que “o mercado não é pra mim”.

A diferença entre o sócio e o apostador não está na ação. Está na cabeça de quem compra.

Quem manda é o mercado (e aceitar isso é meio caminho andado)

Existe um erro que eu vejo o tempo todo, principalmente com gente inteligente e bem-sucedida. O médico renomado, o empresário que construiu um negócio do zero, o engenheiro brilhante — todos chegam à bolsa com a mesma lógica: “Se eu venci na minha área com esforço e método, vou vencer aqui do mesmo jeito.”

Não funciona assim. E a razão é simples: na sua profissão, você tem algum controle sobre o resultado. Na bolsa, quem manda é o mercado, não você. Você pode estar 100% certo sobre uma empresa e ainda assim ver a ação cair por meses, porque milhões de outras pessoas — com informações, medos e prazos diferentes dos seus — estão negociando ao mesmo tempo.

Investir bem não é bater de frente com o mercado querendo “vencê-lo” na base da força e do ego. É o contrário: é ter a humildade de reconhecer que o mercado é maior que qualquer opinião individual, e trabalhar a favor dele, não contra.

Aqui vale uma dose de realismo. O Ibovespa (o índice que representa a média das principais ações da bolsa) já é, por si só, um adversário difícil de bater. A maior parte dos investidores — e até dos profissionais — não consegue superá-lo com consistência. Por isso, aliás, começar pelo ETF faz tanto sentido: comprando o índice, você já leva a média do mercado sem precisar acertar ação por ação.

E se você quiser mesmo buscar um retorno acima do Ibovespa? Então prepare-se para duas coisas: paciência e risco. Ganho excedente não cai do céu — ele é a recompensa por segurar uma boa tese quando o mercado ainda não a reconheceu, e por tomar riscos conscientes e calculados. E não se trata de arriscar mais por arriscar, mas de escolher com cuidado quais riscos valem a pena.

Nem todo risco é igual: o que dá pra diluir e o que não dá

E, já que falamos em risco, vale entender que ele vem em dois sabores.

O risco diversificável (também chamado de risco específico ou não-sistemático) é aquele ligado a uma empresa ou setor em particular: uma fraude na contabilidade, a perda de um contrato importante, um processo judicial, um CEO que toma uma decisão desastrada. A boa notícia é que esse risco você consegue diluir. Ao distribuir seu dinheiro entre várias empresas de setores diferentes, o tropeço de uma tende a ser compensado pelo acerto de outra. É por isso que “não colocar todos os ovos na mesma cesta” não é clichê — é matemática.

Já o risco não-diversificável (o risco sistemático, ou risco de mercado) é o que atinge todo mundo ao mesmo tempo, não importa quão bem diversificada esteja sua carteira: uma disparada dos juros, uma crise global, uma recessão, uma mudança brusca no câmbio. Esse risco você não elimina diversificando — ele é o “preço do ingresso” para participar da bolsa. O que dá pra fazer é dosá-lo, ajustando o quanto do seu patrimônio fica exposto à renda variável de acordo com o seu perfil e seus objetivos.

Como diversificar na prática — quantas empresas ter, de quais setores, em que proporção — é assunto que dá pano pra manga, e vou dedicar posts inteiros a ele quando a gente for falar sobre como montar uma carteira de ações. Por ora, fica a ideia central: espalhar reduz o risco específico, mas não some com o risco de mercado. E esse risco de mercado tem um protagonista no Brasil, que vai reaparecer daqui a pouco, ainda neste post: os juros.

Por onde começar: um único indicador

Assim como eu sugeri começar pelo ETF para você sentir o mercado sem se expor demais, na hora de escolher empresas individuais vale o mesmo princípio: comece simples.

No início, você precisa entender basicamente um indicador: o Dividend Yield (DY).

O que é o Dividend Yield?

Dividend Yield é o quanto uma empresa paga de dividendos (a fatia do lucro distribuída aos acionistas) em relação ao preço da ação. Em português claro:

DY = quanto a empresa te pagou em proventos ÷ preço da ação × 100

Um exemplo: se uma ação custa R$ 50 e, ao longo de um ano, pagou R$ 4 em dividendos, o Dividend Yield é de 8%. Na prática, significa que, só de proventos, aquele investimento te devolveu 8% no ano — além de qualquer valorização (ou queda) do preço.

Por que começar por ele?

Porque o DY funciona como um primeiro filtro poderoso. Com ele você já consegue:

  • Eliminar boa parte das empresas de cara. Quem não distribui lucro fica de fora desse primeiro corte.
  • Identificar empresas que geram e repartem lucro — em geral, sinal de um negócio maduro e saudável.
  • Ver a grana caindo na conta de tempos em tempos, o que ajuda (e muito) na disciplina emocional de quem está começando.

O cuidado que ninguém te conta

Um Dividend Yield alto não é, sozinho, garantia de bom negócio. Às vezes ele dispara simplesmente porque o preço da ação despencou — e o mercado pode estar enxergando um problema real na empresa. É a chamada “armadilha de dividendos”.

Por isso, o DY é a porta de entrada, não a decisão final. Ele te ajuda a montar uma lista de candidatas saudáveis para, depois, você estudar com calma. Um filtro, não um oráculo.

A força invisível por trás da bolsa: os juros

Lembra do risco não-diversificável, aquele que atinge o mercado inteiro e que você não elimina diversificando? Pois é o momento de conhecer o exemplo mais poderoso dele no Brasil: a taxa de juros (a Selic). É uma variável que mexe com a bolsa inteira, o tempo todo, e que muito iniciante ignora.

A lógica é simples. Quando os juros estão altos, a renda fixa passa a pagar muito bem com baixíssimo risco. Nesse cenário, por que arriscar na bolsa? Muito dinheiro migra para os títulos, e as ações tendem a ficar pressionadas. Quando os juros caem, acontece o contrário: a renda fixa perde a graça, o dinheiro sai em busca de retornos maiores e a bolsa costuma se valorizar.

É uma espécie de gangorra. E ela aparece com clareza quando olhamos os últimos 20 anos:

Gráfico Bolsa x Juros no Brasil (2002–2024): quando a Selic sobe, o Ibovespa tende a sofrer, e vice-versa
Fontes: Banco Central do Brasil (Selic meta ao fim de cada ano) e B3 (Ibovespa, fechamento anual). Elaboração: Grana Livre.

Repare no período destacado, entre 2016 e 2020: a Selic despencou de 14,25% para 2,0% ao ano — o menor patamar da história — e o Ibovespa saiu de cerca de 43 mil para quase 120 mil pontos, quase triplicando. Não por acaso, foi justamente nessa janela de juros nas mínimas que a bolsa (e histórias como a da Magalu) virou assunto de bar.

Colocando em números, a correlação entre Selic e Ibovespa no período foi de −0,74 quando olhamos a variação ano a ano. Traduzindo: nos anos em que os juros sobem, a bolsa costuma cair — e vice-versa. Não é uma regra automática (a bolsa também responde a lucros das empresas, câmbio e cenário externo), mas é uma das forças mais importantes para entender o clima do mercado.

Na prática, o que isso muda pra você? Nada de tentar “adivinhar” o próximo movimento do Banco Central. A ideia é mais simples: entender que, em momentos de juros muito altos como o atual, é natural a bolsa andar de lado e a renda fixa brilhar — e que isso, para o investidor de longo prazo, pode significar boas empresas ficando mais baratas.

Sua próxima ferramenta: a Bússola de Ações

Entender o Dividend Yield é o primeiro passo. Colocar isso em prática, sem se perder numa planilha gigante, é o segundo.

Foi pra isso que criei a Bússola de Ações aqui do Grana Livre: uma ferramenta pensada para te ajudar a filtrar empresas com método, começando pelos indicadores que realmente importam pra quem está saindo do ETF e dando os primeiros passos na seleção de ações — o Dividend Yield entre eles.

Acesse a Bússola de Ações do Grana Livre

Use como um mapa: ela não decide por você, mas te mostra o caminho para decidir com mais clareza.


Resumindo

  • Não existe fórmula mágica. Existe método: resiliência, disciplina e estudo.
  • Compre com um “porquê” claro — é ele que te segura nas quedas e te avisa na hora de sair.
  • Tenha humildade: quem manda é o mercado, não você. Sucesso na sua profissão não se transfere automaticamente para a bolsa.
  • Bater o Ibovespa é difícil. Para buscar retorno acima da média, os ingredientes são paciência e risco consciente.
  • Saiba a diferença entre risco diversificável (dá pra diluir espalhando os investimentos) e não-diversificável (o risco de mercado, que você só consegue dosar).
  • Comece simples: o Dividend Yield é um ótimo primeiro filtro para achar empresas saudáveis (mas nunca é a decisão final).
  • Entenda a gangorra dos juros: juros altos pressionam a bolsa; juros baixos costumam impulsioná-la.
  • Use a Bússola de Ações para colocar tudo isso em prática sem se perder.

No próximo passo, a gente vai além do Dividend Yield e começa a olhar outros indicadores que ajudam a separar as empresas realmente boas das que só parecem boas. Fica ligado.


Conteúdo de caráter estritamente educacional. O Grana Livre não realiza recomendação de investimento e não sugere a compra ou venda de ativos específicos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Antes de investir, avalie seu perfil, seus objetivos e, se necessário, procure um profissional habilitado.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top